Cartas Triangulares na II Guerra Mundial

Hoje vou falar de um assunto que nunca vi abordado na literatura filatélica brasileira. São os feldposts de soldados russos. Vou tentar abordar o assunto misturando de um ponto de vista mais técnico e humano.

Durante a 2ª Guerra Mundial, as tropas em campo tinham direito a fazer o envio de cartas sem selos. A isenção de franquia só não valia para as encomendas (parcel post). É o que os colecionadores de História Postal Militar chamam de Feldpost. Até aí nenhuma novidade para a maioria. Como havia muita escassez de envelopes, o jeito era improvisar, visto que as cartas de soldados deveriam também ser facilmente abertas pela censura postal, a fim de que nenhuma informação estratégica vazasse para o inimigo. O formato triangular também era uma forma de distinguir as cartas de civis e militares, dando a estas últimas maior prioridade na triagem.

Existem 2 tipos:

CARTAS TRIANGULARES – este foi o primeiro formato adotado. A dobra consistia em uma dobra na transversal um pedaço de papel quadrado; aí a folha ganhava o formato triangular. Bastava passar cola de lado em um lado do triângulo e a base

do triângulo ficava aberta, podendo assim ser examinada pelo censurador sem abrir o envelope. Era mais prático e rápido. O endereço do destinatário seguia as mesmas regras dos envelopes pré-fabricados em formato quadrado ou retangular: endereço na frente e texto na parte interna. O verso do triângulo era usado para os carimbos de expedição e recepção. O único problema era a pequena quantidade de texto que poderia ser escrita. Já tive em mãos cartas em que a “folha de guarda” de um livro foram arrancadas para escrever uma carta triangular. “Folhas de guarda” são a primeira e última páginas, que prendem o miolo do caderno ou livro à capa. As folhas de guarda, por padrão, são feitas em papel mais grosso que as folhas do miolo.

carta-triangula-de-soldado-sovietico-2a-guerra

CARTAS NO FORMATO DE DELTA – Foram a evolução das cartas triangulares, pois mais folhas poderiam ser acrescentadas. Uma dobra para a esquerda e outra para a direita. As pontas de baixo eram dobradas para dentro e novamente uma dobra no meio. Esta dobradura da carta, curiosamente me faz lembrar o chapéu de soldado que as crianças faziam para brincar…

Ilustrando graficamente a dobradura era assim:

dobradura-de-uma-carta-em-delta-2a-guerra

Os desenhos nestas cartas eram comuns e ilustravam o que os soldados estavam vivendo no front de batalha. Bem, acho que as imagens falam por si próprias!

desenho-em-carta-triangular

Devemos nos lembrar que chegavam e saíam cartas do front. Obviamente que o censor postal não toleraria uma carta de conteúdo político feroz contra Stalin ou alguma informação que fornecesse pistas de uma localização da tropa. No entanto, a atitude do censor era até certo ponto respeitosa para com o remetente, pois ele sabia na cabeça de todos havia um turbilhão de sentimentos. Assim, ele simplesmente devolvia a carta, sem destruí-la.

Outro aspecto interessante envolvendo o censor postal num contexto de guerra é que a identidade do mesmo precisava ser preservada a todo custo, inclusive para a própria segurança do mesmo. Não nos esqueçamos de que ele sabia bastante sobre tudo e  todos! Daí termos as marcas de censura apenas em letras e/ou números.

Agora vamos entrar num terreno, que é pura especulação de minha parte. Sempre me perguntei o porque da escolha por parte dos soldados soviéticos do formato triangular para seus feldposts na 2ª Guerra. Nunca encontrei uma resposta técnica ou algum comentário sobre isso. Será que foi uma escolha casual ?

Ultimamente tenho pensado que talvez esta resposta esteja lá atrás, na 1ª Guerra Mundial. Lembram-se daqueles carimbos dos prisioneiros de guerra austro-húngaros na Sibéria ? Eram triangulares também! Será que serviram de inspiração para a dobradura das cartas na 2ª Guerra ? É uma hipótese.

carimbo-pow-triangular-1a-guerra-siberia

Agora uma parte desta história que me comove muito! Em 9 de Maio de 2010, portanto no 65º aniversário da 2ª Guerra, o correio imprimiu e distribuiu entre os veteranos de guerra russos (ainda vivos) algumas cartas triangulares para que se lembrassem da ocasião. Estas cartas poderiam ser enviados sem necessidade de selo para qualquer lugar dentro do país.

carta-triangular-de-2010-para-os-veteranos-russos

Marcos Boaventura

É formado em Psicologia pela PUC-MG. Possui Pós-Graduação em Metodologia do Ensino Superior, Docência do Ensino Superior, Psicologia do Trânsito e Acupuntura. Marcos começou a colecionar selos por influência de seu pai. É discípulo do filatelista Álvaro de Carvalho. Boaventura é jornalista filatélico, tendo atuado como secretário da ABRAJOF (Nº 266) e Diretor de Eventos da Câmara Brasileira de Filatelia (CBF). Participou da Comissão Organizadora nas exposições: DIAMANTINA-1993, INTERCLUBES-1994, VILA RICA-2005 e BH-100. Atuou como comissário em várias exposições nacionais. Obteve medalha de prata grande na PHILEXFRANCE-1989 e medalha de vermeil grande na BH-100. É Suplentes do Conselho Fiscal da atual diretoria da Febraf.

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