FILATELIA: ALGO MAIS QUE SELOS

Certa vez me perguntaram:

– O que você ganha colecionando selos ?

Numa sociedade consumista e egocêntrica é duro ouvir uma pergunta destas. Talvez seja por isso que abomine os tais selos personalizados. Sobre a pergunta, vou deixar que esta matéria publicada num jornal espanhol responda por mim. Crianças com dislexia, dificuldades de sociabilização, concentração, organização, déficit de leitura e escrita, relacionamento ruim entre pais e filhos, etc. Fui um garoto extremamente tímido e meu pai, deu-me alguns selos, um classificador e uma pinça. Este passatempo cultural já dura 40 anos. Não gosto que chamem a Filatelia de “hobby”. Com todo respeito, colecionar figurinhas pode ser hobby, mas passa e a febre só voltará na próxima Copa do Mundo de Futebol. Filatelia é passatempo cultural, além de uma excelente ferramenta para a educação e a disseminação da cultura; acho o segundo termo mais adequado. Meu pai gostou tanto dos tais pedacinhos de papel que passou a dar-me explicações sobre as diferenças gráficas existentes entre um selo e outro. Sempre apontava para uma pequena nuance de cor entre 2 exemplares. Ele era gráfico e começamos a colecionar juntos. Depois veio o gosto pelas variedades e pela pesquisa. Aí veio meu tio, primos que também começaram a colecionar. Meu tio colecionava Holanda e meu primo fazia Bélgica. Temos dito ao longo dos anos sobre a necessidade de formação de filatelistas no Brasil. Pais de filatelistas não os buscam nas delegacias após uma farra de final de semana. Não que exista vacina para os conflitos existenciais da adolescência, mas a Filatelia agrega muitos valores na vida de um jovem. Não vou repetir o que foi dito tantas vezes.

Vou fazer outra pergunta! Como o Japão se reergueu após a 2ª Guerra? Investimento no sistema educacional, que já era extremamente qualificado, formando um grande número de técnicos e cientistas altamente qualificados, que serviram de mão de obra para reerguer o país. Não foi “milagre japonês”, mas uma visão realista de como dar a volta por cima em apenas 30 anos, apostando as fichas na coisa certa.

Entre 1949 e 1952, a Alemanha Ocidental recebeu dos Estados Unidos quase 30 bilhões de dólares em valores atualizados. Boa parte dessa grana fazia parte do Plano Marshall, um programa patrocinado pelos Estados Unidos para reabilitar a economia da Europa após a guerra. Claro, eles não queriam que o socialismo e o comunismo avançasse sobre a Europa. Verteram recursos na Educação. Bem, eu não vou fazer maiores comentários sobre como é a Filatelia na Alemanha, pois todos já sabem a resposta. Muito tempo depois a Coreia do Sul também fez um investimento forte na educação.    

Voltando… se existe uma parte vulnerável na sociedade esta é a juventude, que no Brasil é presa fácil para traficantes de drogas. A Filatelia é uma alternativa interessante, pois abre a possibilidade para o jovem de ocupar seu tempo livre com uma atividade cultural que irá ampliar seu universo de conhecimentos. Então, a Filatelia pode ser parte de programas de prevenção, assim como o esporte. Já ouvi chamarem a isto de Filatelia Preventiva. Divulgar a Filatelia em instituições de ensino é algo extremamente louvável e não é à toa que Estados Unidos, Bélgica e Suíça incluem este passatempo cultural em programas oficiais de educação. Países pobres como a Bolívia também fazem isso através de alguns poucos clubes filatélicos, pois aqui como lá, a vício é uma realidade e o subdesenvolvimento cultural também.

Iniciativas isoladas de introduzir a Filatelia entre os jovens são válidas, mas tendem a falhar ao longo do tempo pois a nossa sociedade tende a ver a Filatelia como uma coisa para nerds. Nerds são estereótipos de jovens que dedicam suas vidas à atividade intelectual em detrimento de outras atividades mais populares, como jogar futebol. Só que nem todo jovem interessa-se por futebol ou pelo esporte. Então, apostar na Filatelia como algo isolado, fora de contexto, não socializa. Pelo contrário, exclui por ser algo incomum aqui no Brasil.

Acredito muito numa coisa chamada “vocação natural”. Posso até descobrir outras ao longo da vida. Este fenômeno também se dá com empresas e pessoas. Qual seria a vocação natural de uma administração postal? O que seria mais barato para ela, até em termos de custo? Apostar em Filatelia ou em esportes olímpicos? Apostar em esportes olímpicos pode até ser mais midiático, mas ainda assim eu investiria em Filatelia. Pode ser o caminho mais longo e trabalhoso, mas terei uma clientela que vai adquirir o direito a um serviço que nem chegará a ser prestado, além de cativar clientes por muito tempo, apesar dos avanços da tecnologia, pois um ótimo valor foi agregado à marca.

Hoje falei sobre muitas coisas, que podem parecer esparsas, porém com algum sentido lá na frente. Acho que posso parar por aqui. Leia, assine e faça aquilo que sua consciência lhe pede:

https://secure.avaaz.org/po/petition/Presidente_dos_Correios_NAO_AO_SUCATEAMENTO_DA_FILATELIA/?cHiVafb

Marcos Boaventura

É formado em Psicologia pela PUC-MG. Possui Pós-Graduação em Metodologia do Ensino Superior, Docência do Ensino Superior, Psicologia do Trânsito e Acupuntura. Marcos começou a colecionar selos por influência de seu pai. É discípulo do filatelista Álvaro de Carvalho. Boaventura é jornalista filatélico, tendo atuado como secretário da ABRAJOF (Nº 266) e Diretor de Eventos da Câmara Brasileira de Filatelia (CBF). Participou da Comissão Organizadora nas exposições: DIAMANTINA-1993, INTERCLUBES-1994, VILA RICA-2005 e BH-100. Atuou como comissário em várias exposições nacionais. Obteve medalha de prata grande na PHILEXFRANCE-1989 e medalha de vermeil grande na BH-100. É Suplentes do Conselho Fiscal da atual diretoria da Febraf.

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