O Valor das Agências Filatélicas

Gostaria de iniciar fazendo uma pergunta pouco óbvia para um artigo filatélico:

– Como se mede a riqueza de um país ?

Bem, a resposta mais imediata seria por meio do PIB (Produto Interno Bruto), sendo que o principal fator que influência esse indicador econômico é o consumo da população. Portanto, quanto mais as pessoas consomem, mais o PIB cresce.

– E como medir o valor de uma empresa? Pelo patrimônio?

Não; uma empresa pode ter muito patrimônio, mas ainda assim talvez esteja muito endividada e a um passo da falência.

– Pelo patrimônio líquido?

Até há algum tempo atrás esta era a melhor maneira, que consiste em calcular a diferença entre o ativo total e o passivo de uma empresa. Atualmente o valor de uma empresa envolve variáveis muito mais complexas e inclusive aspectos considerados intangíveis ou subjetivos; como por exemplo, analisar qual é a percepção que o mercado faz sobre aquele determinado negócio.

Ninguém duvida na atualidade que um negócio para ser saudável, ele precisa ser também sustentável e conectado com o seu tempo. Essa visão obriga aos administradores, contadores e economistas a irem além do cálculo frio de suas planilhas e começarem a pensar na cultura (produzida ou apoiada) pelas empresas como parte de seus negócios.

O hábito do consumidor moderno mudou radicalmente nos últimos anos. Portanto associar uma marca à cultura não é mais considerado um luxo ou desperdício. Hoje, se o consumidor estiver em dúvida sobre consumir dois produtos parecidos, de mesma qualidade e preço, porém fabricados por duas empresas diferentes, ele irá analisar a postura das mesmas dentro do meio aonde estão inseridas (se respeita o meio ambiente, não discrimina as pessoas quanto à raça, credo e gênero, investe em programas sociais, etc). Se eu tiver que fazer uma escolha aonde gastar o meu dinheiro, farei a escolha por aquele empresa que pensa na qualidade de vida das pessoas; que investe na educação e cultura, que tem responsabilidade social, etc

Empresas que primam pela criatividade, pelos valores éticos, pela solidariedade e afirmação da nacionalidade reforçam suas marcas, transmitem confiança e vencem seus concorrentes num mercado muito disputado em tempos de economia global, porque tudo isso gera bem-estar psicológico ao consumidor, que por sua vez sentirá que entre duas opções, fez a melhor escolha de consumo.

Vamos transportar este raciocínio (que não é só meu) ao serviço postal enquanto negócio.

– Qual é o negócio principal de todos os correios do mundo na atualidade?

– Mandar cartas?

Atualmente não é mais assim. Por que eu postaria uma carta quando eu posso enviar um e-mail, uma mensagem pelo WhatsApp ou Facebook? Com o desenvolvimento do comércio eletrônico, hoje a principal atividade das administrações postais (estatais ou privadas) é o serviço de encomendas.

Vamos a outra questão.

– Porque 9 em cada 10 sites de e-commerce preferem firmar parcerias com os correios do que com empresas transportadoras?

Porque o custo das administrações postais é menor, por prestarem um bom serviço, terem uma rede de varejo bem distribuída por seus países e um monte de outros motivos. O raciocínio não é muito complicado: se eu tenho um funcionário que vai diariamente a milhões de residências entregar cartas, boletos e malas diretas, por que não aproveitar o custo homem/hora para também entregar pacotes? Até aí nada muito surpreendente. Existem fatores até históricos que dão uma grande vantagem para os correios perante os seus concorrentes, pois por séculos, mesmo antes da invenção do selo postal, o carteiro entrega a correspondência, vinda de qualquer lugar do mundo e coloca na sua caixa de correio. Este fato construiu uma relação de confiança a nível mundial por parte do usuário do serviço postal nos correios.

Vamos agora pensar num outro nível, explorado pelos correios há quase 200 anos: o colecionismo. Pensando em termos comerciais, o que te parece em vender ao usuário o direito a um serviço que não será utilizado? Parece ser um bom negócio, não é mesmo? Claro, se eu compro um selo postal que poderia ser utilizado para enviar uma carta para o outro lado do mundo e resolvo não utilizar o serviço e simplesmente guardá-lo em um álbum para colecioná-lo, dou à administração postal muito lucro. Portanto, quando os correios vendem um selo novo (que não será circulado) vendo um “bem cultural”, pois o pequeno pedaço de papel  traz informações importantes sobre a fauna e a flora de um país, sobre seus vultos célebres, suas riquezas minerais, etc.

Alguém disse certa vez que selos postais são as menores embaixadas de um país e isto é a mais pura verdade.

Quando uma administração postal capricha na fabricação de um selo, escolhe bem temas dos selos, no seu design, na qualidade do produto, a Filatelia se transforma numa parte significativa do negócio postal. É isto o que acontece com o Vaticano e San Marino que vendem selos como água e isto faz parte importante da receita destes Estados. Juntamente com a vendas de selos, vão também moedas, medalhas e é explorado o turismo, que é uma verdadeira indústria sem chaminés. Esta é uma parte importante da economia do Vaticano e de San Marino. Nada mais sustentável do que isso!

Aqui no Brasil, a nossa administração postal parece pensar acha o contrário. Oferece um produto de qualidade duvidosa (já foi pior, a bem da verdade), caro, mal distribuído em sua rede de varejo, pouco atrativo para jovens e adultos, inseguro (a julgar pela quantidade enorme de falsificações) e ainda assim anuncia que irá fechar várias de suas agências filatélicas sob a alegação não dão lucro.

E o pior: vai fechar mas também não estabelece quando isto vai realmente acontecer. Pode ser a qualquer momento… Isto assusta funcionários e mostra total falta de planejamento. Os mandantes nunca aparecem, não se manifestam e quando o fazem, são evasivos e imprecisos.

 

Bem, eu não tenho acesso à contabilidade destas agências, mas coloco em dúvida se esta seja é a verdadeira razão, inclusive em relação a 80% das agências comuns. Temo que a decisão que está sendo tomada é simplesmente mais cômoda e mais fácil por quem desconhece a potencialidade da Filatelia enquanto negócio, principalmente quando bem trabalhada tal qual acontece em muitos países do mundo.

Em vez de simplesmente fechar as agências filatélicas aos sábados, porque não retiram as agências de dentro das agências habituais e levam para locais mais acessíveis ao público interessado em cultura, abrindo inclusive nos finais de semana? Eu posso citar uma coisa legal que vi em Paris, aonde funciona uma agência filatélica dentro do Museu do Louvre. Turistas compram muito nestes locais. Além de selos e peças filatélicas, vendem souvenirs e vários produtos associados à marca da administração postal. Por que então não instalar estrategicamente pontos de venda de produtos filatélicos próximo a museus, teatros, cinemas, universidades, bibliotecas públicas, espaços culturais, pontos turísticos, etc?

Tenho visto ao longo dos anos, os trabalhadores das agências filatélicas serem dedicados, atenciosos, dando o melhor de si e, comprometidos com esta consciência de que Filatelia é sobretudo educação e cultura. No entanto, estes trabalhadores não podem fazer milagres diante da falta de investimento na filatelia juvenil, numa estrutura pouco eficiente. Apesar de uma visão que me parece equivocada, a dos selos personalizados, agências filatélicas “tiram água de pedra”. Constato que nossa administração postal poderia explorar muito mais e melhor seus produtos filatélicos.

Sinceramente eu não consigo entender como “matar a Filatelia” pode ajudar os Correios a serem mais competitivos e eficientes no negócio do Sedex e do Pac (que são o carro-chefe da empresa). Penso que é exatamente o contrário. Quanto mais os Correios investirem em cultura, mais os produtos Sedex e Pac ganharão com isso, porque gozarão de uma imagem mais positiva perante o consumidor do serviço postal.

A respeito dos selos personalizados, na minha modesta opinião são uma distorção da Filatelia no mundo inteiro… estão dentro daquela cultura egóica do meu computador, meu facebook, meu celular, meu selo; acho um horror! Só que em outros países, as tiragens mínimas são de 100 folhas, 500 folhas, 1000 folhas! Aqui vende-se a partir de 1 folha. Aonde vamos chegar em termos de números fazendo isso?

Particularmente não tenho nada contra uma empresa que estabelece metas para seus funcionários. Reajustar os seus serviços, sempre que necessário está dentro da lógica do mercado. Se meus caminhões consomem óleo diesel e o preço do combustível aumentou… Mas, quando os Correios já reajustaram por três vezes os serviços postais em 1 ano, fico imaginando que a empresa age como aquele dono de teatro que diante da queda de 50% da plateia, reajusta o valor do ingresso para compensar a sua perda financeira, em vez de procurar uma solução criativa que volte a atrair o público do passado.

Será que reajustar o serviço sem melhorar a qualidade é a solução mais inteligente? Diante do raciocínio que tracei anteriormente, por que não substituir as previsíveis etiquetas adesivas de Pac e Sedex por blocos filatélicos com temas colecionáveis ? Foi isto o que fez recentemente o pequeno correio da Islândia, que emitiu blocos que são usados na encomenda expressa do país, agregando valor cultural ao seus serviços. No caso pode-se ver um bloco que pode portear os pacotes de 2 quilos (mas existem para vários pesos) e, ao mesmo tempo, comemora de forma belíssima o centenário da bandeira nacional. 

Sobre o tratamento do cliente nas agências comuns… Se você quer postar uma carta registrada, aperta uma tecla num painel e recebe uma senha. A sua senha é identificada como “OUTROS”. Diga-me a verdade: como você se sente enquanto consumidor com aquele papelzinho na mão? Eu me sinto muito mal, sinto literalmente como “outro”, pouco importante, que será atendido porque são obrigados a fazer isso. Só por isso! Antigamente a senha era “SELOS E OUTROS SERVIÇOS”. Desculpe-me, mas quem inventou isso não entende nada sobre atendimento ao cliente.

senha-correios senha-outros

Não tenho a pretensão de ensinar ninguém a trabalhar, mas acho que se a administração postal brasileira escutasse e estabelecesse um diálogo construtivo com a comunidade filatélica, com certeza a empresa poderia encontrar soluções mais interessantes, aliando a necessidade da empresa ser mais rentável com o fomento da cultura. O que me alivia é que nenhuma estagnação é permanente, desde que as pessoas certas sejam colocadas nos lugares certos. Quando a nossa administração postal colocar quem entende de filatelia para cuidar dela, muita coisa pode mudar para melhor, desde que hajam boas condições de trabalho. Tenho certeza de que os filatelistas tem muitas boas contribuições e ideias a prestar aos Correios, que tem 350 anos de história e é patrimônio do povo brasileiro!

Para finalizar, gostaria de dizer que as ideias apresentadas expressam unicamente a opinião deste autor.

Marcos Boaventura

É formado em Psicologia pela PUC-MG. Possui Pós-Graduação em Metodologia do Ensino Superior, Docência do Ensino Superior, Psicologia do Trânsito e Acupuntura. Marcos começou a colecionar selos por influência de seu pai. É discípulo do filatelista Álvaro de Carvalho. Boaventura é jornalista filatélico, tendo atuado como secretário da ABRAJOF (Nº 266) e Diretor de Eventos da Câmara Brasileira de Filatelia (CBF). Participou da Comissão Organizadora nas exposições: DIAMANTINA-1993, INTERCLUBES-1994, VILA RICA-2005 e BH-100. Atuou como comissário em várias exposições nacionais. Obteve medalha de prata grande na PHILEXFRANCE-1989 e medalha de vermeil grande na BH-100. É Suplentes do Conselho Fiscal da atual diretoria da Febraf.

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